Criança Yanomami morre em voo para Boa Vista com quadro grave de desnutrição, malária e infecção intestinal
Comunidade indígena na Terra Yanomami. Bruno Mancinelle/Casa de Governo Uma criança Yanomami de 1 ano e 11 meses morreu na tarde deste sábado (14) durante um...
Comunidade indígena na Terra Yanomami. Bruno Mancinelle/Casa de Governo Uma criança Yanomami de 1 ano e 11 meses morreu na tarde deste sábado (14) durante um voo de remoção para Boa Vista. A menina, da comunidade Xitei, na Terra Indígena Yanomami, pesava 6,1 kg e apresentava quadro grave de desnutrição, malária e verminose. O g1 teve acesso ao atestado de óbito criança, que aponta que ela morreu por volta das 17h30, quando a aeronave já se aproximava da capital. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp Ela teve insuficiência respiratória, associada à síndrome de Loeffler — uma reação pulmonar causada por parasitas — e ascaridíase, doença provocada por parasitas intestinais. No pedido de transporte aéreo para Boa Vista, os profissionais de saúde também registraram que a criança apresentava desnutrição grave, além de sinais de desidratação. O g1 procurou a Casa de Governo, órgão interministerial criado para acompanhar a crise sanitária Yanomami, e afirmou que o Distrito de Saúde Indígena Yanomami (Dsei-Y) e o Ministério da Saúde acompanham o caso. Por meio de nota, o Ministério da Saúde, responsável pelo Dsei-Y, lamentou a morte da criança e afirmou que ela recebeu "tratamento para malária, suporte alimentar com aporte calórico e medicamentos para diarreia" mas não resistiu. (Leia a nota na integra abaixo). LEIA TAMBÉM: O que mudou em três anos da crise Yanomami: lideranças apontam o que ainda falta na maior terra indígena do país Terra Yanomami tem surto de coqueluche entre crianças e Saúde de Boa Vista emite alerta Remoção demorou horas, diz associação Segundo relato do presidente da Urihi, Waihiri Hekurari Yanomami, a criança foi retirada da comunidade Xitei na quinta-feira (12) e levada para o Polo Base de Surucucu, onde há um hospital, e permaneceu por dois dias em observação. De acordo com ele, a equipe médica solicitou uma nova remoção para Boa Vista ao perceber a gravidade do quadro. “A criança estava muito doente, com malária, desnutrição, desidratação e vomitando. Foi solicitado o voo para levar para Boa Vista”, disse. Ainda segundo o líder indígena, o pedido para a aeronave foi feito por volta das 10h29 de sábado, mas o resgate só ocorreu cerca de seis horas depois, por volta das 16h20. Durante o voo para Boa Vista, a criança não resistiu e morreu. O corpo foi levado de volta para a comunidade neste domingo (15). Hekurari afirmou que a morte preocupa as comunidades da região e disse que outras crianças já morreram recentemente em situações semelhantes. “Não era para estar morrendo mais nenhuma criança Yanomami por doenças simples, como vermes, diarreia ou malária. O governo mandou muitos recursos para proteger o povo Yanomami, mas esses recursos não estão chegando dentro da terra indígena”, afirmou. Terra Yanomami Lideranças denunciam garimpos ativos e falhas graves na saúde Yanomami Localizada no Amazonas e em Roraima, a Terra Indígena Yanomami tem quase 10 milhões de hectares. No território vivem mais de 31 mil indígenas, distribuídos em 370 comunidades. O povo Yanomami se divide em seis subgrupos linguísticos da mesma família: Yanomam, Yanomamɨ, Sanöma, Ninam, Ỹaroamë e Yãnoma. O território está em emergência de saúde desde janeiro de 2023, quando o governo federal, após a posse do presidente Lula (PT), iniciou ações para atender os indígenas, como o envio de profissionais de saúde e de cestas básicas, além do reforço das forças de segurança na região para frear o garimpo ilegal. Posicionamento do Ministério da Saúde O Ministério da Saúde lamenta a morte da criança. Ela estava sob acompanhamento da Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena (EMSI) desde fevereiro. Recebeu tratamento para malária, suporte alimentar com aporte calórico e medicamentos para diarreia. No dia 13 de março, foi transferida para o Centro de Referência de Saúde Indígena (CRSI) de Surucucu (RR) — unidade inaugurada em setembro passado para atender casos urgentes no próprio território. No sábado (14), diante da evolução do quadro clínico, foi realizada nova transferência para Boa Vista, às 15h20, em voo aeromédico, com máscara de oxigênio e acompanhada por uma médica, uma técnica de enfermagem e os pais. No mesmo dia, foram realizadas quatro remoções aeromédicas de urgência, incluindo a de uma gestante, em meio a chuvas e neblina intensas. O DSEI Yanomami atende cerca de 35 mil indígenas em comunidades dispersas na Terra Indígena Yanomami, território que, em grande parte, só pode ser acessado por via aérea. Desde 2023, o Ministério da Saúde tem atuado para reverter o quadro de crise humanitária no território Yanomami. Com investimento superior a R$ 596 milhões e a contratação de mais de 1.100 profissionais, os atendimentos médicos cresceram 72,6%, enquanto os óbitos totais caíram 27,6% no primeiro semestre de 2025. Os testes aplicados para malária mais que dobraram e os óbitos causados pela doença caíram 70%. Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.